Sábado, Novembro 27, 2004

O livre pensamento de cada um

Ana Karoline: Devo começar dizendo que o meu conceito de liberdade foi se modificando ao longo desse trabalho. Antes dele, nunca havia parado para questionar a presença ou a ausência de liberdade na minha vida. No início, abracei o determinismo, talvez buscando apenas a sublimação da culpa, decretando para mim mesma que liberdade era apenas um conceito criado diante do conhecimento da condição de escravidão. Ao fim do trabalho, percebi que o determinismo cegou-me para a capacidade fantástica de autodeterminação e auto-superação humana.
O meu conceito de liberdade é que ela se manifesta nas ações humanas que, mesmo diante de influências, determinações e limitações, é livre ao se reinventar através da inteligência a cada momento.


Bruno: Eu nunca havia parado para pensar no que, afinal de contas, é liberdade. Sempre via liberdade como fazer o que se quer sem restrições, mas ao longo desse trabalho percebi como estava errado e que liberdade não podia se resumir a tão pouca coisa.
Graças a esse trabalho fui aos poucos formando minha idéia de liberdade e agora minha concepção sobre liberdade é estar constantemente fazendo escolhas tendo consciência de todas elas e dentro de uma série de possibilidades de opções.


André Maia:Este trabalho em muito me ajudou para melhor entender a concepção de liberdade, porem não alterou de modo substancial a idéia que já tinha dela. Liberdade para mim estará sempre ligada a responsabilidade moral. Posso fazer o que bem entendo, desde que, o outro não seja afetado negativamente pela minha vontade, mas sempre positivamente afetado.Não pode existir um caminho, seja ele qual for, que não possua um coração e um Criador maior para concebê-lo.


Arlete Ribeiro: Este trabalho, para mim, foi muito significativo, consolidando a idéia que já possuía de liberdade. Num mundo de dualismos, nada mais natural que pensar em liberdade como o destino natural daqueles que se sentem aprisionados na sua condição de seres situados.Mas o que seria da liberdade numa ótica não dualista? Simplesmente não seria. Naturalmente não haveria necessidade de falar em liberdade já que seu contraposto também perderia o sentido. O jogo dos dualismos apenas nos aprisiona num circulo vicioso. São as armadilhas da mente... Armadilhas da mente, que aprisionam a própria mente, e que tem como destino natural e inevitável, sua liberdade! Mente livre? Mais um jogo...da mente.
Mas afinal como não ser dualista? Resposta: apenas sendo, sem pensar ser.


Elayne e Daniel: Tiveram liberdade para não escrever seus pensamentos...


Liberdade e suas questões

3.1 O Fatalismo

Os antigos gregos acreditavam no fatalismo, ou seja, que todos os acontecimentos, inclusive os atos das nossas vontades, já estavam estabelecidos previamente.
Usavam os mitos, que serviam para explicar as forças da natureza, mas em outras áreas persistiam as antigas superstições em relação à saúde, a doença e a política.
O mito é uma narrativa sobre a origem de algo (astros, Terra, homens, plantas, animais) um modo ingênuo e não reflexivo da realidade, cuja função não é explicá-la, mas situar o homem no mundo em que vive. O mito nasce do desejo de entender o mundo e afugentar o medo e a insegurança do homem em relação aos fenômenos da natureza que são assustadores. Sendo assim ele (homem) dá características e qualidades emocionais a esses fenômenos. (ver anexo I – A lenda de Édipo)
O discurso proferido ou pronunciado para os ouvintes (mito) que recebem a narrativa como verdadeira, pois confiam naquele que narra. A estória é contada em público baseada na autoridade e confiabilidade do narrador. Possivelmente essa autoridade é advento do narrador que testemunhou diretamente o que está sendo contado ou recebeu a narrativa de quem testemunhou os acontecimentos narrados.
O destino é então, uma força cega, impessoal e fixada de antemão, na qual o homem não tem o poder de intervenção e não pode fugir, estando sempre sujeito aos acontecimentos pré-estabelecidos.
Entre os gregos, como em outros povos, era fácil encontrar pessoas que eram capazes de “ver” o seu destino através dos Oráculos. Muitos chefes de estado consultavam o oráculo antes de partirem para uma guerra. Até hoje, alguns políticos consultam as cartas de tarô, os astros etc. antes de tomarem qualquer decisão.
Um dos Oráculos mais famosos existentes no período da Grécia Antiga foi o Oráculo de Delfos (ver anexo II – O Oráculo de Delfos)

Podemos classificar o fatalismo em três tipos:

• Fatalismo Vulgar ou Pagão: Admite o destino, na qual rege o devir universal não admitindo a possibilidade de intervenção humana. Sendo assim o fatalismo vulgar defende a “inação absoluta”, o que ocasionaria um paradoxo, já que é preciso agir para que algo aconteça.

• Fatalismo Panteísta: Identifica a divindade como o mundo, ou seja, tudo é Deus, dessa maneira tudo é necessário. O panteísmo nega a contingência.

• Fatalismo Teológico: Deus conhece toda a eternidade e todos os nossos atos futuros. Aceita a liberdade humana.







3.2 O Determinismo

O determinismo pode ser definido como a relação necessária entre uma causa e seu efeito, ou seja, a causalidade que liga cada acontecimento a um outro através do qual o cientista pretende estabelecer leis na medida que toma conhecimento dessas relações.
Em uma perspectiva mais ampla o determinismo pode ser enunciado como a teoria segundo a qual todos e cada um dos acontecimentos do universo estariam submetidos a um sistema de causa e efeito necessários, até mesmo aqueles fatos que parecem ser resultado da liberdade ou da vontade.
Perceber o determinismo na natureza é simples, em qualquer lugar da Terra em que se solte uma pedra de uma certa altura, ela cairá no chão atraída pela força da gravidade.
A Ciência vem destacando o determinismo nos seres, principalmente o homem. Através da Biologia é possível afirmar que o ser humano é o produto da recombinação entre o material genético de seus progenitores, sendo hoje, com a conclusão do projeto Genoma identificar os genes e seus efeitos.
Os estudos da Sociologia mostram que o homem como ser social é situado em um contexto histórico e econômico, contexto esse que influencia suas atitudes. Para a Psicologia a personalidade humana é resultado do conjunto de experiências vividas na infância.
Deve-se destacar três aspectos do determinismo:

• Determinismo Cosmológico: Refere-se aos fenômenos físicos. Os atos humanos são regidos por leis fixas assim como os demais fenômenos da natureza.
• Determinismo Fisiológico: Os atos “voluntários” humanos são meras conseqüências de reações orgânicas, determinadas por circunstâncias externas.

• Determinismo Psicológico: Admite que os atos humanos são determinados pelo poder impulsivo do motivo mais forte. Ao deliberar, os motivos são postos em conflito e a escolha é pelo motivo de maior impulsividade e não pela vontade humana.

Dessa maneira há a clara negação do conceito de livre-arbítrio, que é a liberdade de escolher com a consciência de que poderíamos ter agido de outro modo.
Para o determinismo, as circunstâncias determinam de tal modo as ações humanas, que as tornam inevitáveis.
Houve filósofos que tentavam conciliar a idéia de livre-arbítrio com o determinismo. Kant dividiu a realidade em mundo sensível, onde vigora o determinismo, e em mundo racional, o que contém a liberdade. Assim compatibiliza moral e determinismo.
A questão que surge em torno do conceito de determinismo é justamente essa: Se não se pode evitar as ações e suas conseqüências, os seres humanos não devem ser responsabilizados.
A defesa determinista afirma que realmente há a incompatibilidade entre moral e determinismo, mas explica da seguinte maneira a serventia do sistema judiciário: A punição serve para dissuadir uma pessoa de praticar determinada ação indesejável ou inconveniente (não se pode falar em certo ou errado) evitando que sirva de exemplo para outros e que prejudique outras pessoas. De modo análogo, a recompensa, o elogio, serve para incentivar a execução de ações desejáveis e servindo de modelo para outros.
A própria Ciência vem mostrando as falhas da teoria determinista. Com novas descobertas, principalmente nas áreas de Física quântica, com a teoria da relatividade de Einstein, as experiências no mundo atômico e a enunciação do princípio da incerteza de Heisenberg, o conceito determinista foi posto em xeque.
Os estudos de Einstein mostram que as leis da mecânica clássica só são aplicáveis se a velocidade de propagação da luz for considerada praticamente infinita. Nas experiências ao nível atômico, percebe-se que cada observação está ligada a uma perturbação infinita do sistema, o que impede a determinação de uma causa pura.
O princípio da incerteza de Heisenberg denota a impossibilidade de medir simultaneamente a posição e a velocidade dos elétrons, muito menos determinar sua trajetória.
Apesar dos avanços da Neurociência, da obtenção de informações cada vez mais detalhadas sobre o funcionamento cerebral e as causas das doenças que o afetam, a mente ainda constitui um enigma. A questão da consciência ocupa hoje um lugar privilegiado, porque a Biologia em geral, e a Neurociência em particular lutam para elucidar a base neurobiológica da mente consciente, o que se tornou um grande desafio.
Não se pode negar a existência do determinismo, entretanto, talvez ele não anule o conceito de liberdade, como valor ético, sendo o ser humano a causa de si e de suas ações.


3.3 Livre Arbítrio

A expressão livre arbítrio vem do latim liberum arbitrium,, que significa o poder de se determinar sem outra regra que a própria vontade; vontade não constrangida. Essa expressão foi utilizada principalmente na linguagem dos primeiros teólogos e filósofos cristãos, e geralmente como sinônimo de liberdade. Porém costuma-se fazer distinção entre livre arbítrio e liberdade.
O livre arbítrio identifica-se com a vontade livre, ou seja, liberdade de escolha do ser humano, e o problema filosófico é justamente tentar determinar em que consiste essa liberdade e em que sentido é possível. De um ponto de vista puramente filosófico, o livre arbítrio faz referencia a capacidade do indivíduo de escolher as suas ações e tomar decisões sem que exista nenhum tipo de constrangimento imposta por causas antecedentes ou por determinação divina. O livre arbítrio foi reconhecido na antiguidade por Platão e Aristóteles, que fizeram dela o fundamento de qualquer tipo de responsabilidade moral.
Para os teólogos cristãos o problema consistia em como conciliar a liberdade humana com a necessidade e a intervenção da graça divina?
Munido do livre-arbítrio, a pessoa pode escolher tanto para o bem quanto para o mal, contudo a vontade humana tende para o mal, pois sua natureza foi corrompida pelo pecado. Portanto, para fazer o bem, segundo o que é pregado na Bíblia, o livre-arbítrio tem que ser auxiliado pela intervenção divina.
As duas correntes principais do pensamento cristão são: A patrística de Agostinho (Séc IV e V) que define o livre-arbítrio como a possibilidade de escolha e liberdade propriamente dita com a realização do bem, tendo como meta a beatitude. O livre-arbítrio está ligado ao exercício da vontade, que sem Deus leva ao pecado. Essa teoria levantou uma questão: Como conciliar a liberdade humana e a presciência divina?
Para Deus, não existe tempo, afinal ele é um ser eterno, logo a idéia de presciência é baseada no conceito humano de tempo, ou seja, Deus não sabe antes sobre determinado fato, ele apenas sabe.
A segunda corrente é a escolástica de Tomás de Aquino (Séc XIII), que sofreu grande influência da teoria Aristotélica (a liberdade da vontade). Para Tomás de Aquino, a liberdade é espontaneidade em seguir o movimento natural próprio de um ser: Mover-se para o bem.
Não há liberdade sem escolha, mas ela não se reduz a isso, é escolher algo transcendente. O que move a vontade é o intelecto que apreende o bem como objeto da vontade.



3.4 O Problema do Livre Arbítrio

A questão do livre arbítrio que envolveu todo o pensamento teológico e filosófico ocidental, e ainda se encontra presente nas discussões contemporâneas. Há algumas questões que são colocadas como problemas do livre arbítrio: o problema da autonomia e o problema da responsabilidade, existe realmente livre arbítrio, ou é uma conveniente ilusão?
O problema da autonomia nasce da própria questão da liberdade humana, e o problema da responsabilidade refere-se ao problema da liberdade alheia.
Muitas vezes nos sentimos impotentes diante da ordem natural dos acontecimentos, como que estivéssemos sendo levados independentes à nossa vontade, o que constitui um problema a nossa autonomia. E a mesma ameaça a minha própria autonomia, ameaça também a autonomia alheia.
Os argumentos deterministas e ateístas vêem o livre arbítrio como uma grande ilusão. Vale aqui ressaltar um texto de Nicolas Lloyd:

Estou numa loja tentado a comprar um par de óculos de sol, mas não consigo decidir se realmente valem o preço que preciso pagar por eles. Fico ruminando e remoendo sobre a decisão, e então deixo a loja sem comprá-los. Volto para casa pensando o tempo todo se fiz a coisa certa. Ainda assim, não há livre-arbítrio envolvido, mas apenas a ilusão de um.
Era certo que não iria comprá-los. Meu cérebro estava em um estado químico particular quando a oportunidade de comprar os óculos chegou, e dada a combinação particular de circunstâncias – o humor em que estava, a iluminação da loja, o conhecimento de meu estado financeiro –, era certo que decidiria contra o investimento. Minha mente consciente, entretanto, não sabia qual seria a decisão final, e aquilo que senti conscientemente foi apenas a agonia da decisão. Tais decisões difíceis são muito raras.
Algumas pessoas revoltam-se contra a conclusão de que não temos livre-arbítrio. Alegam que isso é deprimente, por algum motivo. Nunca me explicaram, apesar de eu ter perguntado muitas vezes, por que deveria me sentir deprimido ao descobrir que não tenho livre-arbítrio. A idéia de que não temos livre-arbítrio é uma conclusão lógica que pode ser inferida a partir do simples fato de que o cérebro é feito de matéria, e que este interage com o mundo através dos sentidos.
Vejo o mundo em que vivo como um lugar grande e complexo. Conseqüentemente – apesar de este possuir um certo e confortante grau de previsibilidade – nunca saberei ao certo qual será o próximo estímulo que irei experimentar. Ademais, não tenho acesso a tudo que meu cérebro está fazendo; deste modo, mesmo se pudesse prever os acontecimentos, ainda não poderia prever qual seria minha reação a eles. A vida é uma interessante experiência tridimensional, com visões, sons, cheiros, sabores e sentimentos. Por que deveria reclamar por não ter livre-arbítrio se possuo a perfeita ilusão de tê-lo, e o mundo é tão encantador? De que modo ter livre-arbítrio poderia me tornar mais feliz?

Liberdade: do pensamento grego ao contemporâneo

Muitas foram as tentativas em construir um conceito único de liberdade, entretanto, elas não lograram êxito.
A liberdade foi abordada de diversas maneiras ao longo da existência humana. Muitos filósofos deram sua contribuição ao lapidar mais uma faceta neste “diamante filosófico” que é a liberdade. A analogia procede, porque ao final de séculos de especulação e teorização, a liberdade é uma “jóia” inacabada. É ousado demais querer condensar anos, décadas, séculos de trabalhos, ensaios e tratados sobre liberdade em algumas linhas. O que aqui se apresenta é um simples esboço da História do pensamento sobre liberdade.


2.1 A Contribuição Grega

Na Grécia Antiga, o conceito de liberdade foi trabalhado vinculado ao campo político e religioso. Liberdade era a condição de autonomia política das cidades-estado gregas, a pólis, além disso, era livre o cidadão grego, munido de seus direitos políticos em contraposição ao escravo que não possuía direito algum, nem controle sobre sua própria vida.
No que diz respeito ao âmbito religioso, a idéia de liberdade opõe-se a crença no destino, situação na qual tudo está pré-estabelecido por forças cegas. Ou seja, o ser humano não passa de um mero fantoche nas mãos dos Deuses, não tem, portanto, liberdade.
Em defesa da idéia de liberdade na Grécia, destaca-se Aristóteles (Séc. IV a. C). Ele trata desse assunto em Ética a Nicômano. Para Aristóteles, é livre e voluntária, a ação que não sofre coações.
Todos os processos do universo e todos os seres, inclusive o homem possuem um fim, uma meta, o ser humano se diferencia dos outros por conhecer essa meta através de sua razão e por exercer ações voluntárias e morais que o guiarão à sua meta natural, ao seu bem.
Deve-se destacar alguns conceitos de liberdade contemporâneos a Aristóteles:

• Liberdade Natural: É a possibilidade de não se submeter a uma ordem cósmica (destino ou natureza) pré-estabelecida e invariável que se apresenta como coação ou forçosidade.
• Liberdade Social ou Política: Autonomia ou independência que permite se autodeterminar sem interferências alheias, entretanto, sem desobedecer as leis.
• Liberdade Pessoal: Autonomia ou independência das pressões que procedem da sociedade ou Estado.



2.2 Liberdade na Idade Média


Para entender o conceito de liberdade predominante nos mil anos entre a queda de Roma (séc. V) e o começo do Renascimento (séc. XV), faz-se necessário entender como viviam as pessoas nessa época, quais os valores que tomavam para si e que tipo de conhecimento era o correto, o que para eles era verdadeiro.
Se existia algo enraizado na mente da sociedade medieval era que existia um Deus lá no “alto” e que os escritos cristãos eram os ensinamentos revelados dEle para a humanidade. Então grande parte do conhecimento filosófico gerado nesse período não questionará essa concepção; muito pelo contrário, uma considerável parcela dos filósofos dessa época usou suas notáveis inteligências para conciliar essa crença e o pensamento filosófico grego. Filhos desse contexto histórico eis que surgem Agostinho de Hipona, Tomás de Aquino, Boécio, Anselmo entre outros que com sua filosofia buscaram conciliar a fé e a razão.

Partindo do pressuposto que Deus é o princípio gerador de todas as coisas, logo o homem uma de suas criações, é impossível analisar o próprio homem sob quaisquer aspectos sem ligá-lo a esse Deus criador (para os medievais). Afinal o homem tem liberdade ou não ? Para os filósofos da Idade Média a resposta era sim. O grande desafio agora era conciliar essa liberdade com o conceito de Deus. Uma vez que Deus é onisciente, onipresente e eterno, ele sabe o presente o passado e o futuro, apesar de que para Agostinho esses termos não são adequados uma vez que Deus está fora do tempo, para ele não existe nem passado nem futuro, em outras palavras, ela já foi lá na frente (futuro) sem ter saído do agora (presente) e olhando tudo lá do que já foi (passado). Se Deus já sabia tudo que o homem ia fazer (presciência divina) onde estaria a liberdade do mesmo.

Agostinho (354 – 430) foi o primeiro grande filósofo a aventurar-se no campo da conciliação entre fé e da razão. Para Agostinho o homem não tem a sua liberdade castrada pelo fato de Deus já conhecer o seu futuro.

“Ao definir três faculdades da alma – memória, inteligência e vontade – têm nessa última a mais importante. A vontade para Agostinho seria essencialmente criadora e livre, e nela tem raízes a possibilidade de o homem afastar-se de Deus. Reside aí a essência do pecado, que de maneira alguma é necessário e cujo único responsável seria o livre-arbítrio da vontade humana. A queda do homem é de inteira responsabilidade do livre-arbítrio humano, mas este não é suficiente para fazê-lo retornar às origens divinas. A salvação não é apenas uma questão de querer, mas de poder. E esse poder é privilégio de Deus. Chega-se, assim, à doutrina da predestinação e da graça, uma das pedras de toque do agostinismo. Sem a graça, o livre-arbítrio pode distinguir o certo do errado, mas não pode tornar o bem um fato concreto. A graça ajunta-se ao livre-arbítrio sem, entretanto, negá-lo. Sem o auxílio da graça, o livre-arbítrio elegeria o mal; com ela, dirigi-se para o bem eterno. Mas, segundo Agostinho, nem todos os homens recebem a graça das mãos de Deus; apenas alguns eleitos, que estão, portanto, predestinados à salvação.” Os Pensadores, 1973

Quando Agostinho ressalva no capítulo X do livro “A cidade de Deus” “não peca o homem precisamente porque Deus soube de antemão” ele defende que apesar de Deus saber de antemão o que vamos fazer, ele não controla as nossas ações. Para Agostinho você possui a faculdade de perceber o bem e o mal, mas livre é aquele que possui sobre si a graça de Deus, pois sem esta graça é completamente impossível fazer o bem. Quando você está distante de Deus pela natureza pecaminosa que você possui (resultado do pecado original de Adão) a sua vontade sempre tenderá para fazer o mal. Sem a graça de Deus não existe liberdade.

Boécio (480 - 524), argumentava que o livre-arbítrio era inerente ao homem, uma vez que para ele todo ser racional obrigatoriamente possui a capacidade de julgar. E, diversamente do que possa ser imaginado, a alma humana será tanto mais livre, quanto mais se mantém na contemplação da inteligência divina, e, tanto menos livre quanto mais desce a juntar-se às coisas corporais, às que se ligam à carne, e, finalmente quando levados pelos vícios, perdem a posse da razão.

A liberdade em Tomás de Aquino (1225 – 1274) está no fato de que Deus dotou todos os homens de uma consciência racional. A bíblia ensinava os preceitos de Deus de como viver bem. Mas também teria dotado o homem com essa consciência que o capacitaria para distinguir entre o certo e o errado de um modo “natural”. Logo, não era preciso ler a bíblia ou qualquer outro livro de cunho religioso para saber que não se deve prejudicar o outro, e que ele deve ser tratado como você gostaria de ser tratado. Em Agostinho o homem pode até querer fazer o bem, mas sem a graça de Deus isso é impossível, já para Tomás de Aquino todo homem possui essa capacidade racional de compreender o certo e o errado, e agir de acordo com essa concepção.

No que diz respeito a presciência de Deus e a liberdade do homem existe um consenso que pode ser bem expresso pela fale de Ockham (1300 – 1350), quando ele diz que Deus possui o "conhecimento intuitivo... de todas as coisas que podem ser feitas ou não"

Essas são, portanto, algumas considerações a respeito de como pensadores da Idade Média, indubitavelmente amparados em fortes sentimentos de fé, viram, enfrentaram e opinaram a respeito do grande obstáculo que se interpõe à razão humana que é tentar conceber a simultaneidade da presciência de Deus e da livre vontade dos homens. Da forma mais simples possível para a complexidade e grandeza do assunto tratado, e sob o peso da flagrante impossibilidade de expressarem com palavras as coisas que estavam além do plano racional, esses homens vagaram por entre os labirintos das explicações e argumentações e esforçaram-se de coração para verem transmitidas às pessoas – mesmo às que não possuem a fé - o que para eles próprios, em certos momentos, parecia límpido e claro. Decerto, o mérito maior não deve ser imputado ao convencimento dos argumentos por eles utilizados. A grandeza desse pensamento que nos é deixado, assim como de toda a obra desses homens se provam sozinhas, pelos mil e quinhentos anos que se mantiveram vivas.



2.3 Pensamento Moderno sobre liberdade

Na Idade Moderna, a abordagem do tema liberdade feita por vários filósofos dos quais pode-se destacar Descartes, racionalista. Para ele, liberdade é a escolha concreta que abre caminho para a busca da verdade.
Já para Hobbes, liberdade era a ausência de todo impedimento ao movimento, o nível de liberdade é definido segundo a amplitude do espaço que se encontra disponível para mover-se.
Hume e Locke fazem a correspondência entre o conceito de liberdade e a capacidade de agir, concepção claramente empirista.
Leibniz compatibilizou a concepção cristã de liberdade individual e responsabilidade pessoal através da teoria da “harmonia pré-estabelecida” que consiste no fato de que a liberdade existe em cada pessoa, mesmo que elas estejam submetidas a uma ordem universal estabelecida por Deus.
Já Kant, busca conciliar a liberdade com o determinismo, conceitos que para ele, se opõe apenas aparentemente. Em sua teoria, Kant divide a realidade em dois mundos: O mundo experimental, ou seja, o sensível, onde “reina” o determinismo e o mundo racional, compatível com a liberdade.
Há em Kant, a associação da liberdade e da escolha moral. O ser humano adquire consciência da liberdade, porque antes de qualquer coisa, tem a consciência do dever, e se deve é porque pode.
Para Hegel, liberdade é essência racional da realidade e da História, onde a liberdade se realiza como um processo.
Na Idade Moderna, no início do século XIX, destacaram-se duas outras vertentes: Os mecanicistas que defendiam o determinismo e a necessidade, e os espiritualistas que defendiam a liberdade.
O pensamento da Idade Moderna foi influenciado pelo Renascimento e pelo Iluminismo, que trouxeram uma nova visão e compreensão da realidade.


2.4 Liberdade no Pensamento Contemporâneo

No século XX, duas vertentes se destacaram no estudo da liberdade: a Filosofia analítica e o existencialismo.
Bergson que se encaixa na corrente analítica, defende a criatividade e a irredutibilidade da consciência ou espírito diante das determinações, ou seja, a auto-superação humana.
É através da relação entre a recordação do passado e a projeção do futuro que se manifesta o devir do eu, a que nada se compara e é esse previsível, e é esse devir, essa imprevisibilidade que nos possibilita a liberdade. Quanto mais nos aprofundarmos em nós mesmos, mais imprevisíveis nos tornamos e mais livres seremos.
Para Moore, também analítico, livre é aquele que age sem ser coagido, que tem consciência que poderia ter agido de outra maneira, isso levou alguns filósofos a suprimir a incompatibilidade entre o determinismo e o livre-arbítrio, pois se pode considerar que uma pessoa age livremente segundo o pensamento de Moore e ao mesmo tempo aceitar que as ações da pessoa estão determinadas, a pessoa provoca a causa.


• Visão existencialista de liberdade:

Para os adeptos do existencialismo, a liberdade é uma questão existencial e não individual. Essa vertente tem como principal expoente o filósofo francês, do século XX, Jean Paul Sartre. Sua filosofia existencialista exerceu profunda influencia nas gerações pós-guerra, inspirando diversos movimentos sociais.
Foi em sua obra “O ser e o nada” que Sartre desenvolveu a temática da liberdade. Para Sartre a liberdade humana é uma questão existencial do próprio sujeito, ou seja, a liberdade é o fundamento de sua existência.
O existencialismo de Sartre é ateu e partindo do pressuposto de que não existe Deus ou qualquer outra divindade que seja responsável pelo homem, ele (o homem) primeiro existe, surge no mundo, e só depois se define, será alguma coisa, será aquilo que fizer de si mesmo. . Não existindo, portanto natureza humana, já que não existe um deus para concebê-la. Por isso, para Sartre, a existência precede a essência.
“ O homem é o projeto do homem” dizia Sartre, porque ele cria sua própria essência, logo é responsável por tudo que faz, e pelo que é, porque é sempre o que opta por fazer ou ser. Opta porque o presente é apenas aquilo que é, o futuro não existe, é o nada; e a menos que consideremos como as coisas podem ser, não existe motivo para se fazer nada.
Precisamos fazer escolhas, opções, para motivar nossas ações. Assim se faz necessário escolher sempre. O homem é sozinho nas suas escolhas...

É o que traduzirei dizendo que o homem está condenado a ser livre. Condenado porque não se criou a si próprio; e, no entanto, livre porque, uma vez lançado ao mundo é responsável por tudo quanto fizer. Sartre: O existencialismo é um humanismo - 1978

O paradoxo da teoria de Sartre é que, o homem sendo condenado à liberdade e a eterna escolha, não é livre para deixar de ser livre, sua liberdade é algo que ele não pode abrir mão.
Para Sartre ser livre não é apenas fazer escolhas, mas fazer essas escolhas livremente, isto é, só o homem pode faze-lo. Optar livremente significa saber e estar consciente das várias escolhas e de seus significados. Ou seja, liberdade não significa fazer apenas aquilo que queremos, mas ter total responsabilidade por nossos atos, uma vez que é totalmente responsável por si, por sua existência. O homem não é apenas responsável por si mas também por toda a humanidade. Não é responsável apenas por sua ação mais também pela imagem que é produzida por sua ação. Ao fazermos nossas escolhas escolhemos por toda a humanidade.

Sem dúvida, a liberdade como definição do homem não depende de outrem, mas, uma vez que existe ligação de um compromisso, sou obrigado a querer ao mesmo tempo a minha liberdade e a liberdade dos outros; só posso tomar a minha liberdade como um fim se tomo igualmente a liberdade dos outros como um fim. Sartre:O existencialismo é um humanismo - 1978

Ortega y Gasset afirma que a vida humana é um eterno fazer-se e não há “remédio” se não escolher a todo o momento. A liberdade é inerente ao ser, já que este tem que decidir o que fazer de sua vida. É um conceito de liberdade radical, ainda que não absoluta, pois o ser humano nasce com duas imposições originais: A sua existência e sua liberdade, pois o homem não escolhe existir e, além disso, é lançado na liberdade.


O desenvolvimento da sociedade, os direitos sociais, o aumento dos poderes econômicos e burocráticos do Estado, reabriram na segunda parte do século XX, o debate intelectual sobre a idéia de liberdadee, reinvidicando a força revolucionária da liberdade política e a igualdade social.

Isaiah Berlin, distingue a liberdade em positiva e negativa, conceito no qual a liberdade positiva é o direito do indivíduo de decidir a própria vida e exercer sua responsabilidade, enquanto a liberdade negativa, se fundamenta na ausência de coação.

John Rawls alia o conceito de liberdade ao de sociedade justa na medida em que são distribuídos igualmente bens e direitos, e conseqüentemente, liberdade, permitindo a todos seu acesso.




• Possibilidade Objetiva

J. A. Marino vê a liberdade como possibilidade objetiva. Para ele, o homem não é livre por natureza, nasce dependente dentro de todo um contexto histórico social, tem, pois, que se liberar, ou seja, superar-se, se livrando das limitações. Liberdade, então é uma ação: De liberar-se.

A liberdade, portanto, não é uma propriedade que possuímos ou não, ou um destino inevitável, mas sim uma possibilidade. Cada ser humano dispõe da possibilidade de autodeterminação, pode construir sua liberdade, abandonar as suas possibilidades de não estar submetido ou dexar-se guiar pelos automatismos sócio-culturais.
Liberdade é liberação de. Há tantas liberdades quanto liberações. Liberdade política, liberdade psicológica, liberdade de movimento, liberdade econômica, etc.

Mesmo em meio às determinações e influências do meio, da realidade, esses fatos não constrangem a escolha, pelo contrário, as limitações induzem a percepção das várias possibilidades de mudar de determinada situação para outra. Liberdade é, pois autodeterminação.

Ser livre é ser senhor da direção de sua própria vida, através do uso criativo e inteligente da razão, capaz de nortear as decisões de sua vontade, para o exercício saudável e construtivo do que chama de liberdade humana.
O homem é livre porque possui em determinado grau e medida, possibilidades objetivas de concretizar escolhas motivadas.


A questão da liberdade como exposto está longe de se fechar num conceito único, mesmo quando colocada como um valor ético e não físico (determinista). Ainda há muito que pensar sobre esse assunto tão amplo, tão complexo, e fascinante, que suscita tanta polêmica e curiosidade.

Liberdade finalmente...

Queridos amigos,

Enquanto esperam o final do artigo sobre Taoísmo (que eu prometo que vai sair essa ano ainda...) eu ofereço um trabalho que fiz com muito carinho, junto com companheiros maravilhosos: André Maia (meu prof de bateria e orientador espirital ocidental), Arlete Ribeiro (minha prof de Tai Chi Chuan e aquela que me iniciou na filosofia oriental), Bruno Ferreira (BuBu_kun que me introduziu no mundo dos mangás e animes e que me forneceu grande parte deles e acima de tudo meu amigão), Daniel (o nosso inquistor EU-NÃO CONCORDO é seu sobrenome, é o responsável pela nossa diversão e loucura durante o trabalho), Elainy (vascaína carioca fala sério! Gente fina!) e Marcus Markans que não estava na nossa equipe, mas que atrapalhou a gente para caramba e isso merece destaque. OBRIGADA AMIGOS POR UM DOS MELHORES MOMENTOS DA MINHA VIDA!
Sem mais delongas aqui começamos...

I. Liberdade – Um ensaio...

Afinal o que é essa tal de liberdade? O ser humano possui liberdade? Essas são questões complexas e tem sido objeto de reflexão pelo homem ao longo de toda sua história. Liberdade vem do latim libertate, que é a faculdade de cada um se decidir ou agir segundo a própria determinação. No entanto podemos encontrar vários sinônimos para liberdade dentre eles: Autonomia, Independência, Livre arbítrio, Emancipação, Vontade, Autodeterminação, Prerogrativa, Liberação, etc.

Na verdade existem inúmeros conceitos de liberdade como também inúmeras divisões de liberdade em classes. Podemos citar como exemplo de conceitos:

 Faculdade do ser humano de escolher suas ações, com responsabilidade.
 Faculdade de cada um decidir pelo que entende ou pelo que lhe convém.
 Estado de um coração livre, isento de paixões
 Estado de quem não é escravo, como também estado de quem não está preso.
 Direitos dos cidadãos de uma dada nação de fazer ou decidir, desde que não se oponha a lei ou que não vá contra os direitos de outrem.
 Prerrogativa ou privilégio para fazer algo.
 Iniciativa, ousadia, licença, permissão.
 Facilidade de execução de movimentos, nas operações
 Maneira familiar de proceder sem constrangimentos ou com desprendimentos das convenções sociais.
 Etc.


Também são inúmeras as classes de liberdade. Por exemplo:
 Liberdade de consciência.
 Liberdade religiosa
 Liberdade política
 Liberdade Privada
 Liberdade de pensamento ou expressão
 Liberdade de imprensa
 Liberdade do espírito (para dominar as paixões)
 Liberdade provisional (isenção do cumprimento da prisão preventiva)
 Etc.



Não podemos reduzir a idéia de liberdade a um único conceito, nem simplesmente apenas fragmentá-la em classes. O conceito de liberdade é amplo e complexo, que deverá sempre ser entendida em relação a diferentes contextos. No que se refere a filosofia , liberdade é uma ideia que permeia a mente dos antigos filósofos gregos e permanece até os dias de hoje apenas revestida por uma nova roupagem mais contemporânea.

Portanto neste rápido ensaio sobre liberdade, com o intuito de não fechar uma questão ou ponto de vista sobre liberdade, e em respeito as diversas opiniões que a nosso ver, são todas corretas se considerarmos, seu contexto histórico e fundamentação teórica, faremos uma rápida visão histórica da liberdade, e em seguida nos deteremos a expor as grandes questões da liberdade e as principais visões, como o destino, fatalismo, determinismo, livre arbítrio, visão da igreja, a questão existencialista da liberdade e a atual visão das possibilidades objetivas.
E para concluir, este ensaio, decidimos por expor a visão de cada integrante grupo, no sentido de não fechar o tema em um único conceito, numa única visão, dada a relatividade da questão da liberdade; sendo assim respeitamos as diversas argumentações dos grandes filósofos ao longo da história e ao mesmo tempo respeitando as crenças individuais dos integrantes do grupo, expomos a questão da liberdade e a deixamos em aberto, como sempre o fez a historia.

Domingo, Outubro 31, 2004

Desculpe a demora da conclusão sobre Taoísmo, quero fazer um texto decente.

Segunda-feira, Outubro 11, 2004

Taoísmo II




Texto Taoístas

Esses textos foram retirados do livro "A Essência do Taoísmo" e podem ser encontrados na ìntegra no livro "Tao te Ching". Esses podem parecer um pouco confusos, mas leio-os com atenção e perceba o que eles tem a dizer.

A mãe de todas as coisas

O Tao que pode ser expressado não é o Tao eterno
O nome que pode ser definido não é o nome imutável
Não-existência é chamado o antecendente do céu e da terra.
Existência é a mãe de todas as coisas
Da eterna não-existência, portanto, serenamente observamos o misterioso começo do universo.
Da eterna existência vemos claramente as aparentes distinções
Essas duas são a mesma na fonte e tornam-se diferentes quando manifestadas
Essa identidade é chamada profundidade. A profundidade infinita é a porta de onde vem o começo de todas as partes do universo.

Sê humilde

Sê humilde e permanecerás integro
Curva-te e permanecerá ereto
Esvaszia-te e permanecerás cheio
Gasta-te e permanecerás novo
O que tem pouco receberá
O que tem muito ficara embaraçado
Portanto o sábio prende-se ao uno e torna-se o padrão para o mundo
Ele não se exibe por isso brilha
Não se aprova portanto é notado
Não se elogia portanto tem mérito
Não se glorifica portanto se avantaja
Porque nao compete niguem no mundo pode competir com ele

O Tao eterno

Há uma coisa inerente e natural
Que existia antes do céu e da terra
Imóvel e insondável
Jaz sozinha e mutável
Penetra em tudo e jamais se esgota
Pode ser considerada a mae do universo
Não sei o seu nome
Se fosse obrigado a dar-lhe um nome
A chamaria de Tao, e eu a chamo suprema
Suprema significa ir para adiante
Ir para adiante significa ir muito longe
Ir muito longe significa voltar
Portanto o Tao é supremo o céu é supremo a terra é suprema o homem é supremo. Há no universo quatro coisas supremas e o homem é uma delas
o homem segue as leis da terra
A terra segue as leis do céu
O céu segue as leis do Tao
Tao segue as leis de sua naturaza intrínseca

Acredito que seja mais interessante apresentar os textos do que ficar tentando explicar para vocês, assim poderão tirar suas próprias conclusões.

Quarta-feira, Outubro 06, 2004

Taoísmo I




O TAOÍSMO

O Taoísmo é uma filosofia oriental que busca resgatar o contato entre o homem e o meio natural e o transcendente que o cerca, resgatando o conhecimento intuitivo, profundo, que se encontra na própria alma do homem, e que é frequentemente ofuscada pela fragmentação do conhecimento racional convencional,situação intensificada pela supervalorização da técnica e dos conhecimentos que tem aplicação prática imediata. Reconhecendo que a técnica da racionalidade, apesar de válida em certos aspectos, é limitante, o taoísmo é um caminho que busca o equilíbrio entre o conhecimento intelectual e o intutivo, razão e emoção.
Nós, ocidentais herdamos a visão dualista greco-romana da realidade. Por isso para nós são comuns conceitos como bem e mal, que a nós, parecem contrários e inconciliáveis, entretanto para o Taoísmo, bem e mal, alto e baixo, etc são aspectos da mesma coisa. Parece estranho? É verdade, como uma coisa pode ser e não ser algo? É realmente difícil perceber. Essa percepção, todavia, é conseguida quando estamos num estado mental que naturalmente percebe as coisas para além de seus pares de opostos.
Tao significa caminho literalmente, mas o que é o Tao dentro do taoísmo? Bom é complicado dar um conceito. Veja por que nas palavras de um dos grandes nomes do Taoísmo, Lao Tze:

"O Tao que pode ser expresso não é o Tao eterno.
O nome que pode ser definido não é o nome imutável."
Fonte: A essência do Taoísmo, pág. 7, 1985

Parece estranho, não é? Mas tem explicação, o orientais são completamente cientes das falhas da linguagem e que por mais que se tente, se detalhe, palavras são meras palavras diante da grandeza da realidade.

Terça-feira, Outubro 05, 2004

Filosofia Oriental

Estou pretendo falar sobre a filosofia oriental antes de começar a falar dos filosófos gregos. Por enquanto estou pesquisando, prentendo falar um pouco também sobre o Tai Chi, depois eu explico o porquê.

Sábado, Outubro 02, 2004

Referência Bibliográfica

Oi, caso você se interesse mais pelo assunto Maiêutica, aqui está a referência!

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA


ABBAGNANO, Nicola. História da Filosofia.vol I.Lisboa: Editorial Presença, 1991. Trad António Borges Coelho. p. 97-109

CHAUÍ, Marilena de Souza. Introdução a História da Filosofia dos pré-socráticos a Aristóteles. vol I São Paulo: Brasiliense, 1994. p 134-155.

CLARET, Martin. O pensamento vivo de Sócrates. Rio de Janeiro: Ediouro, 1987.

DURANT,Will. A História da Filosofia. 2. ed. Rio de Janeiro: Record, 1996. Trad Luiz Carlos do Nascimento Silva. p. 27-32

FRANÇA, Leonel. Noções de História da Filosofia. 22. ed. Rio de Janeiro: Agir, 1978. p. 51- 55

MARCONDES, Danilo. Iniciação à História da Filosofia: dos pré-socráticos a Wittgenstein. 6. ed.Rio de Janeiro:Jorge Zahar Editor, 2001. p. 44-48

MARTINS FILHO, Ives Gandra da Silva. Manual Esquemático de História da Filosofia. São Paulo:LTR,1997. p. 24-30

REALE, Giovanni, ANTISERI, Dário. História da Filosofia: Antiguidade e Idade Média. 2.ed. São Paulo:Paulinas, 1990. p. 85-101.

Maiêutica: In: LALANDE, André. Vocabulário técnico e crítico da Filosofia. São Paulo: Martins Fontes, 1993 642 p.

Maiêutica: In: DUROZOI, Gérard, ROUSSEL, André. Dicionário de Filosofia. 2.ed. Campinas: Papirus, 1996. Trad. Marina Appenzeller. 301 p.

Maiêutica: In: ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de Filosofia. 2.ed. São Paulo: Mestre Jou, 1982. 610 p.

Método socrático. http://www.educ.fc.ul.pt/docentes/opombo/hfe/mome ntos/escola/socrates/metodosocratico.htm# Método 1. Acesso em 26 ago 2004.

OLIVEIRA, Cristina G. M. De. Os sofistas e o período socrático - maiêutica e ironia. http://www.filosofiavirtual.pro.br/socrates.htm. Acesso em 08 set 2004.

ROTHEN, Letícia De Paiva. Sobre Sócrates. http://www.portaljovem.com/c onheca_mais.htm. Acesso em 27 ago 2004.

SANTOS, Silvia Gombi Borges dos. O valor ético-político da amizade: uma visão socrática narrada por Xenofonte. http://www.existencialismo.org.br/ jornalexistencial/betaniavalor.htm. Acesso em 27 ago 2004.

Sócrates. http://www.rolltheboneshp.hpg.ig.com.br/textos/socrates.htm. Acesso em 26 ago 2004.

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Sócrates. http://geocities.yahoo.com.br/mcrost07/socrates.htm. Acesso em 08 set 2004.

Sócrates. http://alveno.planetaclix.pt/socrates.htm. Acesso em 08 set 2004.

Sócrates. http://www.feranet21.com.br/biografias/socrates.htm. Acesso em 08 set 2004.

Sócrates. http://www.proespacocult.cng.br/socrates.htm. Acesso em 27 ago 2004.

Sócrates. http://www.trigueiros.com.br/filosofia/socrates.htm. Acesso em 27 ago 2004.

Sócrates. http://www.consciencia.org/antiga/socrates.shtml. Acesso em 27 ago 2004.

Sócrates versus sofistas. www.educ.fc.ul.pt/docentes/opombo/hfe/momen tos/escola/socrates/socratesversussofistas.htm. Acesso em 26 ago 2004.

Sexta-feira, Outubro 01, 2004

A maiêutica Sócratica

MAIÊUTICA

Sócrates era um filósofo que foi um divisor de águas em sua época. Foi considerado pelo Oráculo de Delfos o mais sábios dos homens, entretanto não acreditou, pois tinha consciência de sua ignorância, o que se percebe nessa frase que lhe é atribuída: “Só sei que nada sei.”. Interpretou então que ele não era o mais sábio, mas que o Oráculo usara apenas seu nome como exemplo, o que essa profecia mostra é que sábio é aquele que, como Sócrates tem consciência de sua própria ignorância.

Sócrates desenvolveu um método que tinha finalidades de caráter ético e educativo e apenas secundariamente de natureza lógica e gnosiológica. Esse método tende de modo consciente a despojar a alma da ilusão do saber, curando-a dessa maneira a fim de torná-la apta a descobrir a verdade. O método socrático baseava-se principalmente no diálogo. Sócrates não escreveu nada, pois acreditava que sua mensagem era transmissível pela palavra viva, através da oralidade dialética, por isso tamanha importância é atribuída ao diálogo por Sócrates.

O diálogo socrático tinha duas facetas, a ironia, em que o filósofo colocava-se na posição de discípulo e ia multiplicando as perguntas até levar o interlocutor presunçoso à evidente contradição e constrangê-lo à confissão humilhante de sua ignorância; e a maiêutica, que é o tema que iremos aqui aprofundar.

A palavra maiêutica é de origem grega, maieutiké que refere-se a arte de realizar um parto. A palavra maieia significa parto; Platão criou a palavra maieutiké para se referir ao “parto de idéias” ou “parto das almas” realizado pelo método socrático.

Maiêutica é método que consiste na busca do conhecimento por meio de perguntas e respostas que pretendia forçar o interlocutor a organizar suas idéias e conceitos, livrando-o, quando preciso, da ilusão das aparências e das opiniões, levando-o a “parir” suas idéias. Essa alusão ao ato de ajudar a dar à luz é uma referência explícita à profissão da mãe de Sócrates, Fenarete, que era parteira.

Esse interlocutor, muitas vezes era aquele que tinha sido humilhado durante o processo de ironia que era um jogo brincalhão, múltiplo e variado das ficções e dos estratagemas (ardis) realizados por Sócrates para fazer seu interlocutor a dar conta de si mesmo. O antes sábio dobra os joelhos ante sua própria falta de ciência e busca humildemente o saber, entretanto, essa atitude não era comum a todos a quem Sócrates se dirigia, depois de uma seção com o filósofo, havia aqueles que sentiam ferido o orgulho, o que rendeu a Sócrates muitos inimigos que maquinaram sua acusação e posterior condenação como suposto corruptor da juventude e ameaça à sociedade.

Este filósofo desenvolveu a maiêutica partindo do pressuposto de que o homem aprende lembrando-se do que já sabia numa existência anterior (princípio da reminiscência).

Para Sócrates, as etapas do saber são:

· Ignorar a própria ignorância, atitude típica daquele que pressupõe saber de tudo e dessa maneira é ofuscado pela sua ignorância.

· Conhecer sua ignorância. Ciente de sua ignorância, o homem punha-se a caminho do conhecimento;

· Ignorar seu saber. O homem possui o saber dentro de si desde sempre, entretanto precisa resgatá-lo, é nessa fase que se aplica a maiêutica, que possibilitará a consciência do saber, a última fase do saber;

· Conhecer seu saber. Depois da bateria de perguntas, o homem finalmente organiza suas idéias e chega a uma conclusão acerca do que lhe foi questionado.

Assim, através da maiêutica destacando principalmente temas de cunho moral, Sócrates fazia com que seus alunos tivessem consciência e opinião precisa e pessoal da realidade, das virtudes e de tudo aquilo a seu redor. E é esse o sentido da célebre frase: "Conheça-te a ti mesmo", a ele atribuída, mas que na verdade estava escrita em uma das paredes no templo do Oráculo de Delfos.

A preocupação socrática em trazer ao homem a luz da consciência dá início à fase humanista da filosofia grega, em parte inspirado na atitude dos sofistas em relação ao homem (os sofistas afirmavam que a verdade é relativa ao homem), mas principalmente porque seu método centrava no homem o conhecimento da realidade.

A arte maiêutica ocupava uma posição diametralmente oposta a da sofística. Os sofistas supunham que ao homem era impossível conhecer verdadeiramente seu objeto de estudo, afirmando que o homem só seria capaz de proferir opiniões e que a verdade dependia apenas de um bom discurso e persuasão.

Apesar de todo o seu mérito, a maiêutica tem seu uso restrito a alguns casos. Os temas adequados ao método socrático são aqueles de que o homem já possui um conhecimento anterior, ainda que desorganizado em sua mente, para obter uma conclusão. Isso porque o princípio da reminiscência é falho, o que pode ser demonstrado, por exemplo, pelo fato de uma pessoa anteriormente ignorante ser incapaz de descobrir o meio para exterminar um determinado agente patológico, do contrário, já se teria descoberto a cura para AIDS, já que, partindo do princípio da reminiscência, esta informação estaria presente no homem, embora precisasse ser “parida”.

Os ensinamentos de Sócrates tinham dois propósitos. O primeiro era de demonstrar que o conhecimento era a base de toda a ação virtuosa; o segundo, indicar o conhecimento devia ser desenvolvido pelo próprio indivíduo, de sua própria existência, por meio da ironia e da maiêutica. O conhecimento, segundo esse filósofo, era o requisito prévio da ação livre e consciente. Esse conhecimento, sustentava Sócrates, não podia ser adquirido pela simples aceitação de opiniões individuais, mas somente através da auto-interrogação, da reflexão e do raciocínio.

O papel do filósofo, portanto, não é transmitir um saber pronto e acabado, mas fazer com que o outro individuo, seu interlocutor, através da discussão, do dialogo, dê à luz à suas próprias idéias.

A maiêutica teria um papel fundamental no ensino brasileiro. Estar numa sala de aula, apenas escutando o que o professor diz, sem, muitas vezes, concordar ou entender, transforma o ato de estudar em uma atividade monótona e até alienatória, já que a maioria dos estudantes não tem uma visão crítica sobre o que lhe é exposto, assiste às aulas apenas em busca de boas notas nas avaliações ou porque está preparando-se para o vestibular.

A introdução do método maiêutico no sistema de ensino brasileiro teria efeitos altamente benéficos para os alunos e professores. Além produzir alunos mais conscientes, desenvolve a habilidade de conceituação, argumentação e o senso crítico.

Biografia de Sócrates

Esta composição foi feita pelo Ítalo Mota, meu colega de equipe. Espero que ele não se encomode!

BIOGRAFIA DE SÓCRATES

Sócrates nasceu em Atenas por volta de 470-469 a.C. Ele morava num subúrbio de Alopeke, onde sua casa se situava num distrito de vida sossegada e confortável. Na sua vizinhança, moravam excelentes personalidades atenienses como Tucídides, o líder conservador; Aristides, considerado o justo; e Críton, este último se tornou um grande amigo e discípulo de Sócrates. Críton, um dos homens mais ricos dentre os moradores de Alopeke e de boa formação intelectual, sabendo do potencial de entendimento do futuro grande pensador, decidiu se encarregar dos seus estudos nas escolas de Anaxágoras e Arquelau.

Sofronisco e Fenarete eram os nomes dos pais de Sócrates. Sofronisco era um escultor e ajudara Fídias, que também era um grande escultor da antiguidade, na decoração de prédios públicos. O pai de Sócrates era um homem calado, um pouco triste, com grande sensibilidade. Dizia ele que era descendente de Dédalo, arquiteto e escultor, construtor do labirinto de Creta e pai de Ícaro, espécie de deus protetor dos artistas. Já a mãe de Sócrates, era uma conhecida parteira da cidade. Ela era muito parecida fisicamente com o filho.

Sócrates possuía ausência de beleza física. Era um homem de barba fechada, gordo, baixo e estrábico. Nasceu, porém, para o saber, o debate e a conclusão. Tinha ele como mania beber água nas bicas das ruas, andar descalço e não usava camisa, ficava apenas de túnica. A despeito de ser feio, Sócrates afirmava que era melhor ter o nariz achatado e os olhos inchados, do que ter a cabeça oca.

A sua mulher se chamava Xantipa. Sócrates se casara com ela aos 56 anos de idade. Xantipa era, na época, uma jovem ateniense de família aristocrática que tinha 20 anos de idade. Dessa união foram gerados três filhos: Lâmprocles, Sofronisco e Menexeno. O primeiro e o mais velho dentre os filhos era Lâmprocles. Este possuía o mesmo nome do pai de Xantipa. Sofronisco era o filho do meio. Já Menexeno, o filho mais novo, nascera quando Sócrates já tinha 70 anos. Xantipa era uma mulher insuportável, que infligia a seu marido humilhações constantes e sistemáticos maus-tratos. Segundo Xenofonte, que era um famoso historiador, político e discípulo de Sócrates, certa vez ela entornou sobre ele um balde de água fria. Sócrates, que não se alterava com as atitudes e reclamações de sua mulher, pedia aos seus filhos que a respeitassem e amassem a sua mãe, pois ela era uma mulher de temperamento difícil.

Existem outras fontes de informações que afirmam que Sócrates teve mais de uma mulher. Diógenes Laércio, este do 3o século d. C , colheu informações de autores mais antigos no qual dizem que, segundo Aristóteles, Sócrates teve duas mulheres: Xantipa, da qual teve Lâmprocles, a outra, Mirton, filha de Aristides, o justo, que ele tomou sem dote e deu à luz Sofronisco e Menexeno . Alguns asseguram que Mirton foi a primeira, como Sátiro, Jerônimo de Rodes; outros, dizem que teve as duas mulheres ao mesmo tempo. Dizem que a escassez de homens e a necessidade de repovoar a cidade obrigavam os atenienses a promulgar um decreto, que autorizava a cada cidadão tomar, além da esposa legítima, outra mulher, e a ter filhos dela. Sócrates acolheu este decreto, segundo ditos autores.

Sócrates viveu sua infância e praticamente toda a sua existência em Atenas, dela se ausentando em raras oportunidades. Ele continuou freqüentando as escolas de Anaxágoras e Arquelau e, ao mesmo tempo que se entregava aos estudos com uma paixão que a ele próprio surpreendia, não descuidava da escultura que já praticava ao lado do pai. O trabalho na oficina do pai, porém, não lhe roubava todo o tempo. Logo, Sócrates ficava movimentando suas idéias, pois se interessava nos debates que os filósofos animavam. Ele tinha uma facilidade de assimilar conhecimento e, conseqüentemente, submetia-o ao exame crítico de suas idéias chegando a extraordinárias conclusões.

Uma dessas conclusões era que o conhecimento já esta no homem, porém ele está adormecido, esquecido. Para que esse conhecimento venha à tona, é preciso uma provocação, uma refutação, uma “parturição”, que é o desfecho do processo. Esse método ficou conhecido pelo nome de Maiêutica. O professor ou o filósofo é que será o responsável para que esse método ocorra. O papel do filósofo, nesse caso, assemelha-se a de uma parteira, que faz nascer o produto, o rebento ou o conhecimento depois de longa gestação. A gestação seria a imaginação, a contestação em que nos encaminhamos em direção à verdade pela eliminação do erro e da falsa opinião, e a parturição seria a maiêutica, que representa o momento alto nesse processo que leva ao conhecimento verdadeiro.

Sócrates afirmava que o maior privilégio da arte que ele praticava é que ela põe à prova e discerne com todo o rigor se é aparência verdadeira ou mentirosa que engendra a reflexão do jovem ou se é fruto de vida e de verdade. Também, dizia ele, que tinha os mesmos defeitos que as parteiras: “Dar à luz ao saber não está em meu poder e ao colocar questões aos outros, não dou jamais nenhuma opinião sobre o assunto, e que a causa disto é a nulidade do meu próprio saber”. Desse modo, não há dogmatismo. A verdade é uma busca, não algo dado. Por isso, dizia Sócrates, o mestre não sabe mais que o discípulo. Aquele procura com este o caminho para a verdade.

Consta que Sócrates aprendera o ofício de seu pai e o auxiliava em alguns de seus trabalhos. Quando seus pais, Sofronisco e Fenarete, vieram a falecer, Sócrates teria levado a cabo a tarefa que seu pai empreendia na Acrópole, por ocasião de sua morte; as três Graças, entalhe numa das paredes do local. Sócrates herdou também, além da casa em que moravam, algum dinheiro, dois escravos e uma pequena propriedade situada nos arredores de Atenas. Pouco a pouco, porém, ele começou a abandonar a escultura. Sentia-se atraído pela Filosofia e o desejo de contribuir, pela ação pública para o aperfeiçoamento político de Atenas. Sua oficina, a mesma que fora de Sofronisco, servia agora de ponto de reunião de vários amigos. Debates que abrangiam vários assuntos. Logo Sócrates começou a ficar conhecido em Atenas. Ele não perdia um só debate e era considerado um filósofo intransigente e desassombrado, pois defendia os seus princípios com muita convicção.

Começou a andar nas praças, nas ruas, nos mercados e tratava de assuntos de maior relevância, com a linguagem simples para que todos entendessem. Não tardou a torna-se célebre e cerca-se de discípulos. Os seus principais seguidores foram Alcibíades, Crítias, Cármides, Xenofonte, Críton, Platão, Aristipo, Antístenes e Euclídes. Uma vez Caerofon, um dos seus discípulos, foi pessoalmente a Delfos consultar o oráculo. Buscava conhecer quem era o mais sábio dentre os homens. E o deus Apolo ter-lhe-ia respondido que era Sócrates o homem mais sábio. Com isso sua fama, cada vez mais, aumentara e, conseqüentemente, certas acusações não tardariam.

Eram tantos discípulos que poderiam facilmente ter aberto uma escola – a exemplo de outros filósofos do seu tempo e de época anteriores – mas Sócrates considerava uma indignidade vender a verdade e a sabedoria.

Segundo Diógenes Laércio, Sócrates teria ido um dia ao templo de Apolo, em Delfos. No frontispício do templo liam-se as palavras “conhece-te a ti mesmo”. Ele faria disso a base de toda a sua reflexão filosófica que daí por diante passou a ser centrada no homem e não mais no cosmo. Desde então, ele dá início à sua missão de purgar os espíritos, para obedecer, segundo ele, ao que lhe ordenava o deus.

Aos 40 anos de idade, Sócrates toma parte na batalha de Potidéia, ocorrida no princípio da guerra do Peloponeso, de 432 a 429 a.C. Sócrates participa na condição de hoplita, isto é, de soldado de infantaria. Aí teve Alcibíades como companheiro de armas.

Aos 46 anos, ele luta na batalha de Délion , onde as tropas de Atenas são esmagadas pelos tebanos . Aos 48 anos, Sócrates luta em Anfíbole, na Trácia. Em todas essas batalhas, o filósofo agiu com valentia.

Após uma trégua de seis anos, recomeça a guerra do Peloponeso. Em 406 a.C, Sócrates com 64 anos, as frotas atenienses lutam contra os Lacedemônios e os derrotam. Muitos soldados Atenienses tombaram nessa batalha, ocorrida em Arginusas, devido a uma tempestade que ocorre em seguida, seus corpos não puderam ser recolhidos e levados para Atenas. Tal fato constituía crime, punido com a pena de morte. Os generais foram presos e levados para o tribunal de pritania. Nessa época, era Sócrates o presidente desse tribunal, cujos membros se revezavam de cinco em cinco semanas. Sócrates fez aplicar a lei e exigiu tantos julgamentos quantos forem os acusados.

Aos 66 anos de idade, Sócrates assiste ao fim da supremacia política de Atenas. Esta cidade passa a ser dirigida pelos trinta tiranos, durante nesse governo muitos crimes são praticados em nome da ordem e da estabilidade do estado. O povo, entretanto, se rebela e derruba essa ditadura dos trinta do poder. Logo em um momento em que Atenas tenta sair de uma grande crise material e ideológica e a animar suas tradições, Sócrates com suas idéias torna-se uma presença incômoda para a classe social dominante de Atenas.

Aos 70 anos, em março de 399 a.C. Sócrates é acusado por Meleto e outras pessoas de corromper a juventude, introduzir novas divindades e não reconhecer os deuses do estado. A pena que se lhe pede é a morte.

Abre-se um processo. É constituído um júri popular de 501 pessoas, perante as quais falam Sócrates e seus acusadores. Sócrates não busca a absolvição, pois dizia ele que se fizesse isso, ele estaria aceitando as acusações que estavam sendo feitas contra ele. Ele recebe impassível a sentença de morte. Preso durante um mês, à espera da execução da sentença, recusa-se a fugir da prisão preparada sobre a organização dos seus discípulos, subornando os guardas.

No dia de sua execução, Sócrates bebeu a cicuta de um só gole e, devolvendo a taça ao executor, agradeceu-lhe. Ele começou a andar no cárcere, sempre a falar com os amigos, até que sentiu as pernas cansadas e deitou-se. Momentos depois, ele veio a falecer.

Sócrates não deixou nada escrito em livros, porém deixou escrita sua mensagem no coração dos homens o que a faz, portanto, eterna.

Sócrates dizia que, quando utiliza o diálogo, o conhecimento não é atingido por um único indivíduo, mas por diferentes consciências. Logo, o método dialético (arte de argumentar) utiliza-se um processo para sair do particular e chegar no universal. É um princípio lógico “a priori”.

Um aspecto fundamental da filosofia socrática é a identificação da felicidade e da virtude como ciência. As virtudes se identificam com a razão. O reto pensar e o reto agir são coisas inseparáveis. Logo, a virtude é ciência e a ciência é virtude.

Para Sócrates, a vontade se identifica com a inteligência. Aquele que tem a ciência, a sabedoria, há de querer invariavelmente o bem, há de ser virtuoso. Desse modo, podemos falar e caracterizar um processo ou dito um método socrático, que é a moral. A moral se caracteriza por essa indissociabilidade entre o saber e a virtude.

Além do deus interior, que é a viga mestra de toda a sua ação inspirada pela filosofia, Sócrates professava também a imortalidade da alma. Deus é para ele um modelo ético; ao procurar a purificação e o aperfeiçoamento da alma, a sabedoria produz uma aproximação do estado divino. Também um dos pensamentos de Sócrates era sobre o sábio. Dizia ele que o sábio não busca o útil, mas o bem.
Ítalo Mota